terça-feira, 23 de agosto de 2011

FILIAÇÃO

Uni meu nome ao meu oficio ,
na solda e no giro da espinha.

E por querer mais que a solda ,
fiz poesia descalço.

Sem a velha forma acadêmica ,
e sem a profusão dos prodígios.

Apenas usei chapéu na face clara ,
e no cálculo metafísico que a matéria exige.

Uni com minúcia e selei meu destino .

no fisgo da poesia.

o lenho do oficio ,
no umbigo do nome.



(moisés poeta)

terça-feira, 5 de julho de 2011

BALDEAÇÕES

(para o poeta Eduardo Canhoto ,
que numa explosão de asas , partiu para uma terra estrangeira
em busca de multiplicidade.
o poeta desloca-se , avança...e amplifica sua visão privilégiada
quando percebe que seu cálculo poético cedeu lugar apenas
para as suas danações . o poeta sabe que todo tempo é histórico
e concentra-se , coeso , no percurso.
pois tem consciência que a poesia ,não é para ser inventada,
e sim para ser encontrada.)

O poema doi , e declina cabisbaixo.
pouco serve leva-lo sobre os ombros
no sabido manuseio.

O poema , em breve rota, transita mas não vinga.
ja não se atreve a andar á luz do dia
e é réu por surgimento , desde o ventre até a forma.

Outrora o poeta pelo fogo se encantava.
sangrava em seus manuscritos, e limava a flor erguida
em nome da amada.

Mas na vertigem tem os pés voltados para dentro.
que sentencia-lhe a linguagem dos iguais,
em vias limitadas.

Pesa-lhe as pálpebras adormecidas ,
na vigilia por essências inutilmente sobejadas.

Contudo , ele precisa lançar-se em terra estrangeira.
de geometria serena , de horas litúrgicas...

Ele precisa aprisionar o tigre e seu pássaro de fogo !

Não use mais o vermelho , poeta !
ensalive a palavra mais bonita e ministre seus nervos
estendidos e dilatados.

Antes que perca de vez o cerne da sua angústia,
sobre a qual florescem seus olhos de espanto.


(Moisés Poeta)

terça-feira, 24 de maio de 2011

O BECO

Eu pretendia descobrir os segredos do beco.
estendi minha mão ao seu encontro.
(sangue e carne na moenda do tempo)

daquilo que lhe pertence , seria eu o seu pêndulo.
era essa a aliança invisivel .
a gota insecável regando seus frutos.
duros como pedra.

eu pretendia sondar-lhe os extremos.
seus ciclos formidáveis de liame.

mas o beco tem a sua hierarquia.
e dentro da sua linhagem uma alma insondável.

não tive mais que um aceno.
um parco aceno de uma luz enigmática.
metafórica...

que mal se via na construção da noite.
varava no buraco de uma agulha.

sucumbindo entre as paredes do beco.

onde riscavam

poemas de aço.




(moisés poeta)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O FIO FINO DA CORDA

Não adianta somente abandonar os sábados,
e nem os licores arremetidos para dentro.
é preciso também afiar os ouvidos!

Quando o trem passou ,a noite tinha lábios carnudos
e meu corpo perambulava...

O que sabia eu quando a vida rolou  os dados
no fio fino da corda ?

(aquele trem que eu não peguei
prende a minha história pelo rabo.)

Não adianta apenas acender fogueiras em rituais,
em busca da eternidade.

So os tolos contornam as mesas
e iludem a fome em camas de pregos.

O trem passa com fúria.
e pouco vale essa roupa grudada na pele,
e essa alma presa no corpo.

É preciso afiar os ouvidos,
e principalmente molhar os pés.

E se não for assim,
morrerás com a testa na calçada,
invocando idolos imaginários .

Ou perdido no cio da noite,
inalando o perfume de uma flor embriagada.


(Moisés Poeta)



quinta-feira, 17 de março de 2011

E NÃO SOBROU NINGUÉM









¨ Um dia vieram e levaram meu vizinho que era negro.
como não sou negro,eu nada falei.

Depois vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
como não sou judeu , não me incomodei.

Em seguida levaram meu vizinho que era comunista.
calei-me, pois afinal ,eu não era comunista.

No quarto dia , eles vieram e levaram
o meu vizinho , que era sindicalista.
e novamente não protestei.

Até que um dia eles vieram e me levaram.
então percebi que ja não havia mais ninguém
para protestar...¨


( Martin Niemoller-simbolo da resistência nazista)


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

PURO SANGUE

para SI FERNANDES


Debaixo do ceú azul
uma poeta sem destino
passeia...!

Bebe na fonte do parque
com suas lupas gigantes
e seus engasgos triviais.

Caça um verso como quem caça a alma.
poesia rascante , para a efervescência de todas
as chegadas , e partidas...!

Atenta , ela não esmiúça o óbvio.
e duvida do puro sangue na superfície.
(versos de aço para a insônia dos aflitos)

Ela reza suas lendas com a determinação
que reside em sua escrita.

E assim como tece ,com esmero, violetas que não morrem.
também é dela aquele feroz tomo de versos,
para o alinhamento de todos os suicídios.



( Moisés Poeta)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

















FUI À FLORESTA PORQUE
EU QUERIA VIVER DE VERDADE.

EU QUERIA TIRAR TODA A ESSÊNCIA DA VIDA.

FAZER APODRECER TUDO QUE NÃO ERA VIDA.

E NÃO , QUANDO MORRER,
DESCOBRIR QUE NADA VIVI , DE VERDADE.


(trecho do filme : sociedade dos poetas mortos)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

RENDIÇÃO

Antes da queda duelei com o tempo.
(maldita efemeridade que não dorme)
e minha causa até parecia ter sentido.

Porém descobri que o tempo
não é somente uma lei;
é tambem uma pedra esculpida em meus ossos.

Antes da queda , eu era um homem que se movia
emigrado da falsa claridade da noite.
mas mesmo na penumbra,eu possuia as minhas
armas de defesa,e ainda trazia comigo o fresco
vigor dos embates.

Hoje me cumpro em varias mortes.
e me despenco entre meus ossos;

Um poeta sem livros e sem filhos...

E agora ?

Quem herdará de mim a fraca memória de datas
e a vermelha flor de fogo que trago entre os dentes?

Quem ?



(Moisés Poeta)